quarta-feira, 23 de setembro de 2015

EMPODERAMENTO: Não é sobre o tamanho do seu black power


Atualmente o termo empoderamento tem sido muito empregado dentro de alguns grupos de lutas sociais. Ele é utilizado (ou deveria ser) para denominar o processo no qual uma pessoa se conscientiza e “se dá conta do seu poder”. Haha, (quase isso). Empoderar-se é reconhecer-se enquanto sujeit@ social, polític@, autor@ da sua própria história e capaz de lutar por direitos que não são só seus, mas também de um grupo. Empoderamento é singular e é plural. Singular no sentido de que é um processo individual e pode ocorrer pelas mais diferentes motivações. Plural porque por meio do empoderamento aprendemos que a luta é coletiva, em prol d@s irmãs e irmãos.
Por Ana Carolina Cerqueira Do Preta e Power

          Como o título do texto sugere, a abordagem refere-se a um recorte do movimento negro. É notável que nesses últimos anos, com a ascensão da internet e mais especificamente das redes sociais, o tráfego de informações tornou-se muito mais intenso e com isso o conhecimento passou a ser mais acessível. Ele transpassou os muros da academia e veio para as redes e ruas, possibilitando que @s pret@s compreendessem melhor certos fenômenos sociais e pudessem colocar a boca no mundo pra dizer que estamos juntos nessa luta, que é por respeito, espaço e “otras cositas más“.
Inclusive, volta e meia surgem campanhas (lindas por sinal <3 ) com objetivo de denunciar o racismo, estimular a autoaceitação d@s pret@s, aumentar a autoestima do nosso povo e defender a valorização da estética negra.
          Entretanto… o movimento pró cabelo natural (que é uma forma de militância negra) nem sempre tem voz uníssona. E talvez nem devesse obrigatoriamente ter, pois é por meio das divergências que surgem as problematizações e conseguimos construir conhecimento. Mas existem alguns ruídos muito dissonantes e que tem me obrigado a parar para um minuto de autorreflexão e reflexão sobre o universo ao meu redor. Eu tenho escutado muito a palavra empoderamento, mas nem sempre num contexto em que eu o perceba de fato.
          Só pra contextualizar: O ato de deixar o cabelo natural exige algum tempo para o seu autoconhecimento, fortalecimento e (des)construção de valores estéticos, a princípio. Se empoderar é perceber a dimensão política que está representada em assumir o black ou as molas, perceber o quanto somos discriminad@s pelo nosso fenótipo, passar a buscar mais conhecimento para entender alguns fenômenos sociais e lutar juntos pelo combate ao racismo e demais tipos de discriminação. Perceber que os seus traços, a sua cor de pele e o seu cabelo são lindos também é se empoderar. Mas empoderamento não é só isso e ser natural não é a única porta de entrada, embora tenha sido a motivação de várias pessoas, inclusive a minha.
          Pasmem: uma pessoa negra não precisa necessariamente deixar de alisar ou relaxar o cabelo para ser empoderada :o . Ela não precisa vestir as roupas mais “estilosas”, não precisa ter um black power gigante, “cachos perfeitos” ou coloridos, não precisa usar maquiagens diferentes muito menos sair por aí tombando “azinimiga” (nem sequer devemos ser inimigas), mas se ela quiser,ela PODE se apresentar com uma estética diferente da usual, até por quê gente empoderada é antes de tudo livre <3 .
          Ser empoderad@ é elogiar um@ companheir@! (até porquê palavras negativas não agregam nada de bom né mores?). É defender os seus iguais que estão em situação de opressão, combater e denunciar o racismo – mesmo nas redes -, é inspirar e mostrar que as nossas características físicas não devem ser uma limitação para chegar onde queremos e que podemos SIM ocupar qualquer espaço. É dizer pra uma preta que acabou de fazer o BC e está com a autoestima fragilizada o quanto ela é linda. É enxergar e respeitar a beleza que existe na diversidade das nossas cores de pele, tipos de cabelo e formas do corpo. Inspirar e ensinar a cuidar da nossa estética também é empoderar.
           Pret@s, ser empoderad@ transcende o campo estético, então não vamos utilizar o termo como sinônimo de beleza, estilo ou algo do tipo, certo? – embora pessoas empoderadas sejam sempre bonitas, mas nem sempre vice-versa -. Ser empoderad@ é entender que estamos juntos nessa luta e que somente juntos é que podemos ser de fato livres. Não estamos numa briga de ego. Vamos empoderar @s noss@s iguais e espalhar coisas boas por aí?!
“Eu não serei livre enquanto houver *pret@s* que não são, mesmo que suas algemas sejam muito diferentes das minhas.”


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Palavras de Origem Africana usadas em nosso vocabulário

Palavras de Origem Africana usadas em nosso vocabulário de A a Z,  e seus significados.
A
abará: bolinho de feijão.
acará: peixe de esqueleto ósseo.
acarajé: bolinho de feijão frito (feijão fradinho).
agogô: instrumento musical constituído por uma dupla campânula de ferro, produzindo dois sons.
angu: massa de farinha de trigo ou de mandioca ou arroz.
B
bangüê: padiola de cipós trançados na qual se leva o bagaço da cana.
bangulê: dança de negros ao som da puíta, palma e sapateados.
banzar: meditar, matutar.
banzo: nostalgia mortal dos negros da África.
banto: nome do grupo de idiomas africanos em que a flexão se faz por prefixos.
batuque: dança com sapateados e palmas.
banguela: desdentado.
berimbau: instrumento de percussão com o qual se acompanha a capoeira.
búzio: concha.
C
cachaça: aguardente.
cachimbo: aparelho para fumar.
cacimba: cova que recolhe água de terrenos pantanosos.
Caculé: cidade da Bahia.
cafife: diz-se de pessoa que dá azar.
cafuca: centro; esconderijo.
cafua: cova.
cafuche: irmão do Zumbi.
cafuchi: serra.
cafundó: lugar afastado, de acesso difícil.
cafuné: carinho.
cafungá: pastor de gado.
calombo: quisto, doença.
calumbá: planta.
calundu: mau humor.
camundongo: rato.
Candomblé: religião dos negros iorubás.
candonga: intriga, mexerico.
canjerê: feitiço, mandinga.
canjica: papa de milho verde ralado.
carimbo: instrumento de borracha.
catimbau: prática de feitiçaria .
catunda: sertão.
Cassangue: grupo de negros da África.
caxambu: grande tambor usado na dança harmônica.
caxumba: doença da glândula falias.
chuchu: fruto comestível.
cubata: choça de pretos; senzala.
cumba: forte, valente.
Cumbe: povoação em Angola.
D
dendê: fruto do dendezeiro.
dengo: manha, birra.
diamba: maconha.
E
efó: espécie de guisado de camarões e ervas, temperado com azeite de dendê e pimenta.
Exu: deus africano de potências contrárias ao homem.
F
fubá: farinha de milho.
G
guandu: o mesmo que andu (fruto do anduzeiro), ou arbusto de flores amarelas, tipo de feijão comestível.
I
inhame: planta medicinal e alimentícia com raiz parecida com o cará.
Iemanjá: deusa africana, a mãe d’ água dos iorubanos.
iorubano: habitante ou natural de Ioruba (África).
J
jeribata: alcóol; aguardente.
jeguedê: dança negra.
jiló: fruto verde de gosto amargo.
jongo: o mesmo que samba.
L
libambo: bêbado (pessoas que se alteram por causa da bebida).
lundu: primitivamente dança africana.
M
macumba: religião afro-brasileira.
máculo: nódoa, mancha.
malungo: título que os escravos africanos davam aos que tinham vindo no mesmo navio; irmão de criação.
maracatu: cortejo carnavalesco que segue uma mulher que num bastão leva uma bonequinha enfeitada, a calunga.
marimba: peixe do mar.
marimbondo: o mesmo que vespa.
maxixe: fruto verde.
miçanga: conchas de vidro, variadas e miúdas.
milonga: certa música ao som de violão.
mandinga: feitiçaria, bruxaria.
molambo: pedaço de pano molhado.
mocambo: habitação muito pobre.
moleque: negrinho, menino de pouca idade.
muamba: contrabando.
mucama: escrava negra especial.
mulunga: árvore.
munguzá: iguaria feita de grãos de milho cozido, em caldo açucarado, às vezes com leite de coco ou de gado. O mesmo que canjica.
murundu1: montanha ou monte; montículo; o mesmo que montão.
mutamba: árvore.
muxiba: carne magra.
muxinga: açoite; bordoada.
muxongo: beijo; carícia.
maassagana: confluência, junção de rios em Angola.
O
Ogum ou Ogundelê: Deus das lutas e das guerras.
Orixá: divindade secundário do culto jejênago, medianeira que transmite súplicas dos devotos suprema divindade desse culto, ídolo africano.
P
puita: corpo pesado usado nas embarcações de pesca em vez fateixa.
Q
quenga: vasilha feita da metade do coco.
quiabo: fruto de forma piramidal, verde e peludo.
quibebe: papa de abóbora ou de banana.
quilombo: valhacouto de escravos fugidos.
quibungo: invocado nas cantigas de ninar, o mesmo que cuca, festa dançante dos negros.
queimana: iguaria nordestina feita de gergelim .
quimbebé: bebida de milho fermentado.
quimbembe: casa rústica, rancho de palha.
quimgombô: quiabo.
quitute: comida fina, iguaria delicada.
quizília: antipatia ou aborrecimento.
S
samba: dança cantada de origem africana de compasso binário ( da língua de Luanda, semba = umbigada).
senzala: alojamento dos escravos.
soba: chefe de trigo africana.
T
tanga: pano que cobre desde o ventre até as coxas.
tutu: iguaria de carne de porco salgada, toicinho, feijão e farinha de mandioca.
U
urucungo: instrumento musical.
V
vatapá: comida.
X
xendengue: magro, franzino.
Z
zambi ou zambeta: cambaio, torto das pernas.
zumbi: fantasmas.



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Acesso: 23/09/2015 - 14h33min

Lupita e insustentável leveza do ser… preta

Lupita DIVA Nyong’o será pela segunda vez capa da revista VOGUE, a mais conceituada revista de moda do mundo.
Ela divulgou as fotos em suas redes sociais deixando, nós, reles mortais estateladas no chão.











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Acesso: 23/09/2015, 14h28min

Está na moda ser preto, desde que você não seja pret


É bem comum encontrar nas redes sociais algumas pessoas defendendo a ideia de que o racismo não existe (em geral pessoas brancas, mas ainda é possível encontrar algumas pessoas pretas com a síndrome de Holiday) usando argumentos batidos como o da “democracia racial” e de que no Brasil o problema é social e não racial.
          Vejo também um esforço muito grande em disfarçar todos esses problemas com uma atitude que não consigo deixar passar batida, algo que faz parte do movimento “ser negro ta na moda”. Neste movimento vemos pessoas brancas se vestido com temas africanos, usando turbante, fazendo parte de diversos movimentos negros e até renegando a cor da sua pele (é, sei que não faz sentido, mas vamos lá).
          Quem me conhece sabe que sou totalmente a favor da integração entre povos e culturas. Sabe que vejo com bons olhos jovens pretos e brancos juntos, discutindo o destino do nosso país. O que me incomoda é ser preto apenas quando lhe convém.
Ser preto no samba, no hip hop, no candomblé, ser preto assim é fácil. Gostaria que essas mesmas pessoas fossem “pretas” quando a polícia abordou com violência meu irmão na rua, quando uma pessoa perde uma vaga de emprego por ser preta. Quando um canal de TV exibe um programa com teor racista.
          Gostaria que fossem pretos na riqueza e na pobreza, na alegria e na tristeza.
          Na verdade o que vejo são pessoas se apropriando da nossa cultura, esvaziando seu significado, usufruindo apenas dos benefícios e ignorando as desvantagens.
          Por que, quando seu amigo foi humilhado na escola você não disse nada? Por que você não se mostrou indignado quando fizeram aquele comentário racista sobre os haitianos no trabalho? Por que você não rebateu seu familiar quando, num almoço de família, disse que “agora tudo é racismo” e que não podemos dar ouvidos a esse mi mi mi?
          Não fez nada porque ser preto está na moda, desde que você não seja preto.
          Estudei em uma escola pública, mas que por muitos motivos era composta por muitos alunos brancos, e sei que o silêncio do “amigo” dói tanto quanto a piada racista.
          O Brasil precisa de pretos fortes e de brancos desconstruídos e conscientes dos seus privilégios, pois só assim vamos avançar para uma cultura integrada.
          Quer desconstruir? Acha o sistema racista odioso? Venha para o nosso lado, mas venha inteiro, não pela metade.


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Pedreiro se forma em Direito após pedalar 42 km por dia para estudar

Joaquim Corsino recebeu o diploma nesta quinta-feira (17).
Aos 63 anos, ele ainda quer ser delegado de polícia.

Do G1

          Mais de 40 anos e muitos desafios precisaram ser atravessados para que o pedreiro Joaquim Corsino realizasse seu sonho. Aos 63 anos de idade, vestido de beca e com chapéu de formando, ele recebeu, na noite desta quinta-feira (17), em Vitória, o seu diploma de graduação em Direito.
Para realiza o sonho, o pedreiro Joaquim Corsino dos Santos pedalava, diariamente, entre Cariacica, onde mora, até Vitória, onde fica a faculdade de Direito em que ele estuda. A distância, cerca de 21 quilômetros entre um município e outro, não desanimou o estudante. “Quero ser delegado de polícia” disse
               Nascido em Itaumirim, Minas Gerais, Joaquim chegou ao Espírito Santo aos 18 anos. Com mais de 20 concluiu um curso técnico em Administração.
Mas após não ser aprovado no vestibular de Ciências Contábeis da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), em 1980, precisou deixar os livros para trabalhar. A partir de então, Joaquim começou a atuar como ajudante de   pedreiro e, mais tarde, como pedreiro.
Ainda assim, a vontade de estudar sempre esteve presente. Por isso, a cada parede erguida por Joaquim, parte do dinheiro ganhado era guardado. Além de construir sua casa, em Bandeirantes,Cariacica, o pedreiro juntou ao longo dos anos R$ 55 mil para os estudos.
        “Eu sou um camarada que gosta das coisas honestas. Sempre quis fazer um curso de Direito para ajudar outras pessoas”, conta Joaquim, que em 2008 iniciou a graduação em uma faculdade privada. Quatro períodos foram concluídos, mas o pedreiro  teve que adiar o sonho por mais um tempo.
“Um amigo pediu R$ 4.500 emprestados e não pagou. Aí eu tive que parar a faculdade para juntar mais dinheiro para poder pagar o curso todo”, lembrou.
De Bicicleta
          Em 2012, Joaquim retornou à graduação e não parou mais. Todos os dias ele fazia o trajeto de sua casa até a faculdade, em Vitória, com sua bicicleta em um percurso de 42 km.

          E engana-se quem pensa que com o diploma a saga de superação de Joaquim chega ao fim. Os olhos do bacharel em Direito estão voltados para o futuro. Seu próximo objetivo é ser aprovado pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Em seguida, pretende se tornar delegado. “Quando eu leio a Constituição no artigo quinto, que fala que todos têm direitos iguais, vejo que tem muita coisa boa nela e eu gostaria de contribuir para isso”.
Com informações de Maíra Mendonça, do Jornal A Gazeta.



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Acesso: 23/09/2015 - 14h01min

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Nem seu cabelo, nem seu turbante vão te livrar do racismo


Eu sou uma entusiasta do empoderamento estético há anos. Pessoas negras perdem emprego por serem esteticamente diferente do padrão eurocêntrico imposto nos principais meios de comunicação. Pessoas negras são alvo de perseguição na escola, são preteridas em lugares elitizados, impedidas de adentrarem nos templos de consumo, tudo isso por manter sua estética tal qual ela é. Sempre, em algum momento da vida de um negro, ele ouviu alguém perguntar: ‘Mas não vai alisar esse cabelo?’ ou então ‘Você tem os traços finos por isso é um negro(a) bonito(a)’.

Por Joice Berth, do Imprensa Feminina 
          Por essas e outras sempre tratei a questão como foco de valorização da identidade afrodescendente. Mas, atualmente, quando abro um página de rede social e leio o ataques de uma mulher negra sobre a outra, simplesmente por essa mulher expor uma verdade discutida e confirmada estatisticamente por pesquisas sérias de intelectuais negras e até mesmo brancas e que é um tabu dentro dos próprios movimentos em defesa do negro, me pergunto angustiada: O empoderamento está de fato acontecendo? E em que sentido?
          Já há muito observei meninos negros, bonitos e altivos, ostentando camisas do Malcom X, gritando palavras de ordem e exaltando o “100% preto” e que o discurso não acompanhava nem de longe a prática de valorização racial. Esses meninos continuavam excluídos nos meios sociais que frequentavam e sendo alvo de piadas e comentários racistas, sem argumento intelectual para se defenderem e sem força para dar as costas para os racistas que os atacavam.
          Essa realidade não mudou. Agora ela vem se ampliando, porque os cabelos estão sendo ~aceitos~ mais o racismo continua. Empoderar é criar ferramentas para resistência e luta por igualdade de direitos entre as raças e os gêneros que atuam e ocupam o cenário social. Ponto. E são várias as ações que precisam ser viabilizadas para trazer essas ferramentas até a população negra se empoderar. E é um caminho espinhoso, porque o racismo e machismo internalizado das pessoas provoca reações de ira extrema! A zona de conforto é ameaçada, fica estremecida e obriga a PENSARRRRRR. E o PENSARRRRRR leva ao DESCONSTRUIRRRR, que leva ao RECONSTRUIRRRRR uma nova postura muito mais lúcida e perigosa para o sistema atual. Aí começa a verdadeira briga contra a burguesia exploradora, os privilégios são distribuídos deixando de serem privilégios e passando a ser direito comum.
          Esse é o processo que todo militante deseja que aconteça. Mas como? Se ninguém quer discutir verdades cavernosas como a quebra racial gerada pela rejeição do homem negro a suas iguais e quando alguém se propõe a isso é duramente atacado, perseguido, humilhado com o aval da população negra masculina e feminina. Como? Se ninguém quer levar a aceitação estética a sério e usá-la como faxina interior que pode varrer o racismo internalizado desde o Brasil colonial. Como diz uma intelectual negra contemporânea: ‘Se o preto estiver morto não vai poder sentir orgulho do cabelo’.

          O empoderamento do negro começa, quando ele cria consciência da realidade dolorosa que o cerca e passa a se auto afirmar como negro se opondo a isso no seu próprio meio social. E o cabelo black deve ser uma consequência disso, uma marcação de território que respalda ações políticas em todo espaço social ocupado e não um fato solitário esvaziado de sentido prático. Há que saber da sua história, das lutas dos antepassados, dos problemas que enfrentamos na contemporaneidade e passar a partir dessa reflexão repensar caminhos de atuação dentro e fora dos movimentos negros.
Estamos diante do genocídio escancarado da população negra, na mira de grupos de extermínios que contam com a conivência e a falta de interesse do Estado para promover chacinas, não ocupamos ainda os espaços acadêmicos e profissionais de maneira proporcional, somos vítimas de abortos clandestinos e violência obstétrica nos hospitais públicos. Mas o cabelo está lindo né?! Com cachos soltos e volumosos. E o racismo sendo alimentado pela nossa segregação interna, dentro da própria negritude estamos nos censurando, passando a falsa ideia de que existe uma ‘irmandade’ usando ideias essencialistas, mas que vai ao chão cada vez que alguém contradiz o mito da democracia racial.
          E que fique absolutamente legível que ninguém está se opondo ao orgulho crespo ou dizendo que é isso que vai fazer o racismo crescer. O foco é, até que ponto você está realmente de acordo com a sua manifestação estética. Até que ponto você está pronto para o enfrentamento da sua realidade de pessoa negra.
          Poderíamos refletir com mais seriedade essas questões, sair da caixinha, da caverna do Platão e conhecer novas possibilidades de luta, onde a futilidade não seja estrela da festa. O Black Power é tudo, menos questão estética, logo não pode esconder a futilidade e a alienação de negros que reproduzem o comportamento dos negros da casa grande, aqueles que para ganhar alguma atenção do sinhozinho e da sinhazinha deduravam, expunham e maltratavam seus iguais. Porque esses negros não se livraram da ira racista dos brancos, e você irmão e irmã de cor, não vai se livrar também. Pense nisso.

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5 argumentos sobre o fim do racismo que você provavelmente já ouviu



Volta e meia, alguém, do fundo de sua vasta sapiência, resolve sugerir como pessoas negras devem lidar e reagir a circunstâncias racistas. Isso quando não declaram que essa opressão não existe mais, ou que não faz mais sentido nos dias de hoje. Pensando nesses profetas da “”democracia racial””, eis uma lista que visa desmistificar algumas das alegações mais frequentes.

por Os Entendidos no Revista Fórum
enegrecendo2

O TEMPO

Após a abolição da escravidão, muitas pessoas acharam que, com o passar das gerações o racismo ruiria, contudo, mais de um século depois, essa ideologia permanece bastante viva e adaptada aos novos tempos. Semana passada mesmo vimos um poste substituir – novamente – o tronco onde pessoas negras eram são amarradas e torturadas em praça pública, com o objetivo de dar uma lição a outras pessoas negras que não acatam as recomendações da sociedade branca e para satisfação sanguinária da mesma. Essa longevidade da intolerância – que sempre se acreditou justa – se deve,  provavelmente, ao fato de que opressão nenhuma jamais foi vencida pelo descaso, mas sim pela contra argumentação e devida reeducação. O que nos leva ao próximo item…

IGNORAR / TER PACIÊNCIA / PERDOAR

Por mais que muita gente insista, deixar passar ou perdoar agressões racistas, por menores que sejam, não contribui em nada para sua dissolução. Pelo contrário, reafirma à pessoa responsável pela atrocidade que nenhum dano grave foi cometido. Incentivando-a a repetir o erro sem a menor consciência do mal que ela fez a alguém. Não que tomar conhecimento disso impeça de fato a recorrência do racista, porém, relevar só garante a impunidade e a permanência da injustiça. Pedir para pessoas negras relevarem é conveniente aos privilegiados pelo ideal de supremacia branca. Esperar que pessoas negras sempre levem tudo na brincadeira também é uma forma de discriminar, por exemplo: ninguém pede paciência quando pessoas judias rememoram a dor do Holocausto.

SUCESSO

Ser bem sucedido no desempenho de seu trabalho, ou até no engajamento social, nunca impossibilitou uma pessoa negra de sofrer racismo. Por exemplo: Oprah, a mulher mais rica dos EUA, foi discriminada quando em visita pela Europa; Obama já foi confundido com manobrista; craques de futebol são xingados em estádios do mundo inteiro; Martin Luther King se reunia com os mais humildes e o presidente do seu país e, ainda assim, foi assassinado simplesmente por se manifestar contra a discriminação que sofria por ser negro num país inegavelmente racista. Enfim, são vários os casos de celebridades e profissionais bem sucedidos que, apesar de terem subido na vida com o seu trabalho, foram obrigados a ouvir gracinhas e foram destratados unicamente pela cor de suas peles. Tanto faz a área de atividade, até o nosso ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, já se pronunciou sobre as agruras pelas quais passou ao ocupar uma “posição de alta responsabilidade e visibilidade”. Esse tipo de rejeição ocorre porque todos esses cargos eram são tradicionalmente ocupados por pessoas brancas, então, quando um negro chega lá, seus colegas e as pessoas ao redor não conseguem lidar com o desconforto de obedecer a alguém parecido com quem eles estão habituados a ver limpando seus sanitários. Então, vamos parar de achar que meritocracia resolverá o próprio problema que há tanto fomenta… Se tão somente o suor da labuta garantisse respeito a alguém, médicos que apenas batem o ponto e vão embora estariam abaixo dos garis na escala social e remunerativa.

RELACIONAMENTOS INTERRACIAIS

Apesar de toda a falácia de miscigenação, que vem sendo desmistificada pela genética, relacionamentos afetivos ou sexuais entre pessoas de cores diferentes não significa que o racismo está com os dias contados. Pelo contrário, contentar-se com o singelo fato de que pessoas brancas se envolvem e têm filhos com pessoas de outras cores não abala os muros que antes impediam a oficialização desses relacionamentos, mas sim os fortificam.
Caso você não saiba, a miscigenação brasileira teve início com o estupro de mulheres indígenas e africanas, e nem por isso os europeus responsáveis deixaram de explorar seus “filhos” e “mulheres”. Por séculos! Portanto, nessa mesma nota, vale também lembrar que o comendador que se apaixonou por Xica da Silva não deixou de ter escravos nem se tornou abolicionista. Defender esse tipo de lógica é tão coerente quanto afirmar que nenhum homem hétero pode ser misógino. Desejo não inviabiliza opressão. Então, acreditar que casais interraciais contribuem para o fim do racismo, antes de tudo, é flagrante de uma profunda inocência. Não são poucos os casos de pessoas não-brancas que preferem se envolver com branques justamente por auto-ódio e com o intuito de clarear a linhagem na esperança de que, clareando, seus descendentes não passem pela mesma discriminação que sofreram. Uma das piores dádivas do racismo é, justamente, a rejeição de pessoas negras à própria negritude. Desde a escravidão pessoas negras são ensinadas a respeitar, admirar, defender e até amar seus senhores. Logo, não há nada de revolucionário em alguém negro preferir se relacionar com pessoas brancas, visto que elas são o referencial romântico onipresente em novelas, filmes e livros.
Além disso, a defesa desses relacionamentos costuma sugerir que pessoas brancas, ao se juntarem a negros, asiáticos, indígenas etc., de alguma maneira, estariam compartilhando seus privilégios com seus cônjuges oprimidos, quando na verdade todo mundo sabe que não é assim que a banda toca. Enquanto encararmos pessoas brancas como símbolo de ascensão social ou salvadores, permaneceremos hierarquizando indivíduos segundo seu acesso à branquitude.
Não pretendo dizer que não há hipótese de felicidade em relacionamentos interraciais, só quero demonstrar como essa história de que “amor não vê cor” não é nenhum “e viveram felizes para sempre…” ou “e toda a cultura racista que sempre estruturou a vida do casal partiu rumo aos livros de história”.

 A LEI ÁUREA

Por mais incoerente que seja, não são poucas as pessoas que enchem a boca – ou os dedos – pra dizer que o racismo findou com a abolição da escravatura. Isso mesmo, numa canetada, negros escravizados se tornaram livres das correntes e do preconceito. E assim, tal qual uma deusa da criação, Isabel, através de palavras, fez a luz da igualdade irradiar sobre todos os seres humanos. Então, para dar continuidade à crença nesse poder transformador da palavra, termino: melhorem!